Opinião

Senhor Bom Jesus do Cuiabá, do nascimento a queda

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Por Suelme Fernandes historiador

O episódio do início do ano, do santo padroeiro da capital de Mato Grosso caindo do andor no chão no dia de sua comemoração sagrada, correu as redes sociais e os jornais comovendo a todos, gerando teorias apocalípticas, premonitórias e inúmeras preocupações também com o patrimônio cultural da imagem que se espatifou.

A imagem original do Bom Jesus de Cuiabá que hoje se encontra na Igreja Matriz, foi fabricada na vila de Sorocaba por mãos de uma mulher desconhecida, mas segue o estilo barroco característico de outras obras sacras da América Portuguesa.
Existem duas versões sobre o surgimento e transporte dessa imagem até Cuiabá, numa delas teria sido trazida pelas mãos de um comerciante sorocabano por nome Pedro Moraes, que por causa das intempéries e dificuldades da navegação nos rios na época, teria deixado a imagem numa paragem do caminho as margens do Rio Paraná.

Há registros de que a imagem foi encomendada em anos anteriores quando se descobriu esses sertões, provavelmente quando levantaram a primeira Igreja de mesmo nome no ano de 1723.
Contudo, pelas dificuldades da viagem demorou a chegar em Cuiabá.
De São Paulo e Araritaguaba- Porto feliz até a Vila de Cuiabá, entre água e terra, perfaziam-se 3.664 quilômetros de distância enfrentando cachoeiras e ataques indígenas.
O astrônomo Francisco José Lacerda e Almeida em seu Diário de Viagem de 1780, informa uma versão diferente dessa anterior, de que essa imagem foi encontrada numa Ilha denominada Manoel Homem às margens do mesmo Rio Paraná.

Manoel era um criminoso que possuía essa imagem e se refugiou nesse local e tendo que fugir às pressas deixou o santo numa choupana de palha num lugar chamado Guarapiranga.

Um comerciante de passagem recolheu a imagem para dar melhor destinação ao santo e transportou no ano seguinte para outro local às margens do Rio Pardo acima da barra do Rio Anhanduí também em um rancho.
A imagem teria voltado ao Guarapiranga e finalmente repousou na região de Camapuã.

Camapuã era uma fazenda que dava suporte para as monções que acessavam por um caminho de terra de 17 quilômetros os rios Taquari ou Miranda na Bacia do Rio Paraguai. Era um ponto de pousio e estalagem.
Diante das dificuldades de transporte para imagem vir para Cuiabá de Camapuã, em 1729, o Senado da Câmara de Cuiabá determinou que às suas custas fosse buscado o santo padroeiro sob responsabilidade do Cabo Domingos Barbosa Leme com 25 homens e três canoas sobre o comando de Caetano de Brito Menezes, Pantaleão Martins, Joaquim Soares, pardo forro e mais alguns indígenas e escravos.

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O varadouro estava a aproximadamente 1.315 quilômetros de distância da Vila de Cuiabá por meio fluvial.
Depois de quase 6 meses de viagem a imagem foi transportada num caixão que levaram de Cuiabá já fabricado e chegou com grande salva no Porto da Vila.
E foi levado em procissão até a Matriz onde foi colocado num altar colateral esquerdo, segundo o primeiro historiador de Cuiabá José Barbosa de Sá.

No mesmo dia houve festa de missa cantada e sermão que pregou o Padre Mestre Frei franciscano José Angola.
Naquele dia representaram duas comédias, houve banquetes e fogos que duraram quatro dias seguidos. Tudo as custas dos fiéis da matriz e em especial de dois fazendeiros devotos do Bom Jesus, Baltazar de Sampaio Couto e Antônio Correia de Oliveira.

A imagem original, em estilo barroco é toda de madeira, tem o tamanho humano e mede aproximadamente 1,75 m. de altura.
Na tradição cristã católica a imagem do Bom Jesus de Cuiabá é a mesma do Bom Jesus de Cana Verde de Portugal.
E representa o Cristo flagelado, coroado de espinhos, coberto com um manto vermelho e tendo a mão um pedaço de cana que seria na via sacra uma espécie de zombaria sob a santidade de Jesus e o seu cetro sagrado.

Além de Cuiabá ter sido consagrada ao padroeiro Bom Jesus outras cidades coloniais assim também o foram, como Bom Jesus de Matosinhos em Minas Gerais e Bom Jesus da Lapa na Bahia.
A saga de Jesus Cristo sangrando, como exemplo, amainava as dificuldades e agruras dos colonos nos sertões numa sociedade escravocrata no centro da América Portuguesa.

Servia como um anestésico social e político eficiente para aqueles que esperavam diante de tanto sofrimento a ressureição depois da morte.
Na heráldica que estuda os símbolos cristãos a ressureição de Cristo é representada pela fênix, a mesma que dista no brasão oficial de Mato Grosso.
O brasão foi criado pelo Arcebispo mais conhecido da Matriz do Bom Jesus, Dom Aquino Corrêa justamente para estabelecer essa conexão hipertextual com o Bom Jesus renascido.

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Segundo a Historiadora Leila Borges de Lacerda, desde que Miguel Sutil descobriu ouro no Córrego da Prainha em Cuiabá em 1722 o local foi batizado e consagrado ao Bom Jesus.
Inicialmente, no mesmo ano, com a construção de uma capela pelo Capitão-Mor Jacinto Barbosa Lopes em louvor ao Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Exatamente no local onde se encontra a atual igreja matriz.
Em 1723, o local das minas do Sutil foi denominado sede da freguesia e Arraial do Bom Jesus de Cuiabá.

E em 1727, alcançou o status de Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá.
Somente a partir de 1835, quando passou a ser a capital de Mato Grosso, no lugar de Vila Bela da Santíssima Trindade passou a se chamar apenas Cuiabá, sem o Bom Jesus.
Destacamos que até 1919 o aniversário de Cuiabá foi comemorado no dia primeiro de Janeiro em referência a comemoração da data de aniversário do padroeiro e fundador da capital.

Essa devoção e comemoração e seus bens sagrados têm seguramente mais de 300 anos e deveria ser tombada como patrimônio material e imaterial mato-grossense e brasileiro.

Portanto, foram 112 anos dos atuais 305 anos da capital sob a evocação, égide e denominação do Arraial e depois Vila ao Bom Jesus de Cuiabá.
Talvez por toda essa História e cultura religiosa a imagem do santo caindo do andor, antes da procissão, no altar mor da igreja no dia de sua comemoração chocou tanto a população cuiabana.

Felizmente foi só um susto, porque a imagem era uma réplica.
Alguém ao ver a cabeça do Cristo espatifada no chão usou o famoso ditado popular “Devagar com andor que o santo é de barro” e digo eu, pode andar com andor que nosso santo é de madeira, madeira nobre e está bem guardado na sacristia.
E assim, Cuiabá segue seu caminho consagrado como a capital dos mato-grossenses e abençoada pelo Bom Jesus.

Um destino tão indestrutível como a fé e a esperança de que dias melhores virão em 2024, seguindo os ensinamentos do verdadeiro Cristo que também caiu por três vezes, mas soube se levantar com sua cruz e ressuscitar.

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Crianças são reflexo do ambiente

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Mariana Vidotto é psicoterapeuta, mentora e palestrante
Mariana Vidotto é psicoterapeuta, mentora e palestrante

Por Mariana Vidotto

Durante anos, inúmeras famílias chegaram ao consultório em busca de respostas para comportamentos considerados “difíceis” nas crianças: crises emocionais, agressividade, ansiedade, dificuldades de aprendizagem, insegurança, irritabilidade, isolamento, explosões frequentes ou até sintomas físicos sem causa aparente.

Na maioria das vezes, o olhar inicial recaía exclusivamente sobre a criança, como se ela fosse o centro do problema. Mas a prática clínica revela algo muito mais profundo: a criança raramente adoece sozinha.

Ao longo da experiência construída no acompanhamento terapêutico infantil e familiar, tornou-se impossível ignorar um padrão recorrente. Muitas crianças estavam apenas expressando, através do comportamento, aquilo que o sistema familiar ainda não havia conseguido elaborar emocionalmente. O sintoma infantil, frequentemente, é a linguagem silenciosa de um ambiente emocionalmente sobrecarregado.

A criança absorve o ambiente antes mesmo de compreender plenamente as palavras. Ela percebe tensões, sente ausências afetivas, reage à instabilidade emocional dos adultos, internaliza conflitos, excessos de cobrança, desconexões emocionais e vínculos fragilizados. Aquilo que muitas vezes é interpretado apenas como “mau comportamento” pode ser, na verdade, uma manifestação legítima de sofrimento emocional.

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A neurociência do desenvolvimento infantil já demonstra que o cérebro da criança é profundamente moldado pelas experiências emocionais vividas dentro do ambiente familiar. Relações marcadas por insegurança, instabilidade, rigidez excessiva, negligência emocional ou ausência de presença afetiva impactam diretamente a forma como essa criança aprende, se relaciona, regula emoções e constrói sua percepção sobre si mesma e sobre o mundo.

Foi justamente a partir dessa compreensão clínica que surgiu a necessidade de ampliar o cuidado para além da criança. Porque tratar apenas o comportamento infantil, sem olhar para a dinâmica emocional da família, é atuar apenas na consequência enquanto a origem permanece intacta.

Ao longo de mais de uma década acompanhando famílias em diferentes países, uma constatação passou a se repetir de forma contundente: muitas crianças carregam dores emocionais que não nasceram nelas. Elas apenas expressam aquilo que o sistema familiar silencia, reprime ou ainda não conseguiu transformar.

Existem crianças vivendo em estado constante de alerta emocional. Crianças rotuladas como agressivas quando, na verdade, estão emocionalmente desorganizadas. Crianças consideradas “difíceis” quando apenas aprenderam a sobreviver ao caos emocional ao redor delas.

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O olhar sistêmico rompe com a ideia ultrapassada de individualizar o sofrimento infantil. Ele compreende que toda criança está inserida em uma dinâmica emocional coletiva e que, muitas vezes, ela se torna o reflexo mais visível de estruturas familiares fragilizadas.

Por isso, o trabalho terapêutico com famílias não busca culpados. Busca consciência. Busca interromper padrões emocionais destrutivos que atravessam gerações de forma silenciosa. Busca reconstruir vínculos, fortalecer a comunicação afetiva e devolver segurança emocional às relações.

Quando os adultos se reorganizam emocionalmente, a criança deixa de precisar manifestar através do comportamento aquilo que a família ainda não conseguia enxergar.

É nesse momento que o desenvolvimento infantil deixa de ser apenas uma tentativa de correção de sintomas e passa a se tornar um verdadeiro processo de transformação familiar.
Porque, na maioria das vezes, a criança não é o problema. Ela é apenas a primeira a revelar que algo dentro daquela estrutura precisa ser cuidado.

Mariana Vidotto é psicoterapeuta, mentora e palestrante, especialista em neurociência aplicada ao desenvolvimento humano e dinâmica familiar com acompanhamento terapêutico sistêmico. @marianavidotto

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